Tucuna
Quando a porta do Boeing 737 da Varig abriu, no Aeroporto da Mineradora Rio do Norte, em Trombetas, uma lufada de ar quente entrou pela aeronave dando as boas vindas a um outro Brasil. A primeira impressão da Amazônia foi o seu ar quente, pesado e carregado de aromas da incrível mata que circula tudo. Durante toda nossa estada pelas paragens de Oriximiná, a paisagem seria rigorosamente a mesma: Uma mata exuberante e rios de águas transparentes. A ansiedade de chegar agora dava lugar a tal da vontade de pescar. Porém, ainda tínhamos um longo caminho, rio Trombetas acima, a percorrer até ao aguardado encontro com o Tucunaré, peixe símbolo da pesca esportiva do Brasil.
Porto Trombetas é um entroncamento de diversas facetas deste Brasil. Pertence ao município de Oriximiná, segundo maior do país, do tamanho do estado de Alagoas e faz fronteira com o Suriname e a Guiana Inglesa e com os estados do Amazonas e Roraima. Sede da mineradora Rio do Norte, multinacional d e capital predominantemente brasileiro e dona de tudo que existe no local. Aeroporto, posto de saúde, restaurante, estradas, casas. Tudo existe em função da bauxita, minério carregado dia e noite em navios de 50 mil toneladas, de todas as nacionalidades, que esperam a sua vez para atracar no porto. Lá também é ponto de partida de outras embarcações menores, carregadas de famílias que tem no rio seu único meio de locomoção. Canoas diminutas, barcos feitos de troncos de madeira e até casas flutuantes, dão um toque surrealista ao local.
Nosso objetivo, a pesca do Tucunaré, começa tomar corpo quando nossa embarcação finalmente desatraca do porto. Um final de tarde de ouro contrasta com o vermelho predominante da bauxita que está em todo lugar. O rio está alto e os tucunas, muito provavelmente estarão nos igapés (trechos de mata inundada, durante os períodos de cheias). No barco, nosso anfitrião, Alfeu Carpeggiani, um caxiense que é oficial da reserva da Marinha e chefe da organização Pro-TARTARUGA, conta-nos mais sobre as características do tucunaré da região. No local encontramos três tipos: o tucunaré-pitanga, pequeno e muito apreciado pelo seu sabor; o paca, que tem um padrão de cor marrom e atinge um bom tamanho e finalmente o tucunaré-açu, o gigante brigador da Amazônia, com sua cor amarela e barras pretas verticais , chegando até aos 15 kg. Predador por excelência, ataca qualquer coisa que se mova e é pescado pelos caboclos pelo método de corrico, ou seja, com o barco em velocidade lenta e arrastando uma colher com linha de 0,80 mm , para cima. Pensei em um peixe arrebentando uma linha dessas e confesso que aquela primeira noite, antes da pescaria, foi difícil de encontrar o sono.
Carlos Henrique Iotti
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