Trutas II
A bruma que levanta do rio confunde-se com a cerração restante da noite. Emoldurando as centenárias araucárias, toda essa massa filtra os primeiros raios de sol tornando o amanhecer no rio algo meio surreal. Uma luz absoluta, alto contraste.Algo parecido com um sonho. Além do murmúrio das águas, somente o ruído da carretilha, com o freio aberto para que a linha saia com mais facilidade, para o primeiro arremesso do dia. A primeira isca escolhida é uma ninfa de stonefly. As mãos trêmulas de frio e ansiedade atam rapidamente no leader 4x. O primeiro cast é próximo, exploratório das redondezas. Vários juncos balançam ao sabor do vento frio e matinal. Nas suas proximidades sempre existe a possibilidade de ter uma truta caçando. Zero pique.
O feltro da bota dá segurança suficiente para alguns passos adiante descendo a correnteza do rio. Devagar para não alarmar os gansos. A cerração não permite ver muito longe mas uma pedra grande dentro do rio fazendo as águas se abrirem e criando um pequeno remanso atrás dela promete uma boa possibilidade. Dois lances e a isca é arremessada um metro acima da pedra filosofal. A idéia é deixar a isca derivar ao sabor da força da água e quando entrar no raio de ação da possível truta, cutucar com a ponta da vara simulando uma ninfa tentando eclodir, saltitando dentro da água.Para cima e para baixo.Uma, duas...De repente, um forte soco na linha. Bateu! Truta! A ordem passa do cérebro para a mão em milésimos de segundo. Fisgue. Levante a ponta da vara e prenda a linha. Está fisgada. Pelo menos por enquanto.
Em se tratando de trutas e anzóis sem farpa, isso merece outro parágrafo. Truta fisgada é outro capítulo e nem sempre o pescador sai vitorioso. A presa sente que caiu numa cilada e cabeceia com força várias vezes. A vara parece que vai escapar das mãos. Um salto é a senha para primeira corrida da linha. A carretilha canta timidamente. Uma tocada rápida. Tocata e fuga.Um novo salto, acrobático. Cadê o fotógrafo? Uma nova corrida. Show! Cadê todo mundo pra ver isso?
Ela começa dar sinais de cansaço. Hora de recolher a linha trabalhando com o reel. Devagar. Calma que não é das pequenas. E é nervosa. Já existe até um laço sentimental com a primeira truta do dia. A primeira de uma longa espera. Dias e dias esperando este momento de glória.Momento sonhado em horário de expediente, entre um pedido e outro. Isso é hora de lembrar do trabalho? Mais uma cabeçada. Mas é braba esta truta.
Mais uma recolhida e ela esta ao alcance da mão. Preciso comprar um puçá. Uma nova corrida, a última. Escapou. Logo aqui, nas minhas barbas. Um momento de solene decepção quando algo lhe diz: Valeu! Foi bonito. Valeu. Pesque e solte. Só faltou a foto.
Carlos Henrique Iotti
|