Trout on the storm
Se você pudesse escolher, onde estaria quando passasse um temporal? No dia 2 de dezembro eu estava no meio do rio Silveira em São José dos Ausentes. Foi diferente, divertido e - por instantes- assustador. Vamos aos fatos:
A manhã do dia 2 surgiu esplendorosa. Céu de brigadiano, como se diz na Vila Seca. Dia especial para pescar, como se existisse um dia que não é especial. Abasteci a Nuvem Branca, carreguei com a equipagem essencial e parti para mais uma aventura ausentina. Ausente do trabalho, da rotina e do celular. YES!
Houve um tempo que ir até o Silveira era uma viagem. Hoje com a Rota do sol e o asfalto de Bom Jesus, virou um passeio. Uma ressalva aos vergonhosos e inacabados 8 km da RS 110. Porém nem isso era problema, a Nissan ia que era um Dodge. Somente o vento fazia alguma turbulência ao Jaquirana Air One.
Ao chegar na sede da Potreirinhos a Dona Nilda me recebeu com a gentileza de sempre. Foi o tempo de um cafezinho , colocar o wader e ,- demo via ao rio!
A ideia seria descer o rio e na volta, subir vasculhando pedras, corredeira e bocas de poço. Seria possível pegar uma truta no verão? Ao descer a última borda do morro -looongo morro, - que separa o rio, vi uma barra negra no céu pouco amistosa. Aquilo me fez lembrar que havia deixado a capa de chuva na pousada.
Entrei no rio e elegi um bicho preto com cabeça metálica para iniciar os trabalhos. A água estava quente, o dia mormacento e ventoso. Seria um desafio. Durante uma hora fiz o que sabia e o que não sabia. Na frente do ex-camping do Tonico, porém a sorte mudou quando deixei a mosca derivar com toques leves. Senti o tranco, a linha esticou e bingo!, uma truta saltou com a isca na boca. Uma bem escura, saltou uma, duas e planchou. Quando tava sendo encapada pela net, num último esforço, saltou e escapou. Desaforo! Só porque eu queria tira uma foto para o e-zine. Tudo bem, computei com peixe pescado.
Subo mais um pouco e de novo, outra truta enganada pelo trabalho da ninfa. Mais arisca, mais nervosinha, salta e salta. Consigo coloca-la na net e ela é eleita a top model da tarde. Várias fotos. Sim, podemos pescar trutas no verão. Tão absorto na pesca não me dei conta do que acontecia lá em cima. O tempo havia mudado radicalmente. Nuvens pesadas já pairavam sob minha cabeça, o clarão dos raios e trovões faziam uma trilha sonora do fim do mundo. Anoiteceu. Foi soltar a truta e começaram os pingos de chuva. Grandes como bolas de gude. E a capa lá na pousada , pensei. De chuva não tenho medo, mas de raio sim. Me dei conta de repente que eu no rio com uma vara de fly na mão mais parecia um pára raio. Deitei o cabelo e fui até o campo. Agachado, sob um aguaceiro de entortar aba do boné, assisti de camarote a borrasca. Grinfas de pinheiro e galhos grandes voavam como gravetos. E raios!!! Pensei no Raug. Seria bom que ele estivesse ali, pois ele já foi atingido por um raio e um raio nunca cai no mesmo lugar. A tormenta durou uns vinte minutos. Coisa de voar pão da mala... Tava encharcado até os ossos. A chuva agora era fina e a temperatura havia despencado. Tentei ainda pescar mais uma hora mas molhado e gelado mal conseguia castear. Estava encerrada a pesca, mas com a sensação do desafio ganho. Havia pescado trutas no verão.... e tinha ainda mais um consolo. O Chico já deveria ter feito o fogo e uma paleta de ovelha e um pinot noir sul africano me esperavam, afinal, não foi só a capa de chuva que tinha deixado na pousada.
Carlos Henrique Iotti
Carlos Henrique Iotti
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