Javali, caçando o imigrante europeu
Javali, caçando o imigrante europeu
A página abre uma exceção e não fala de pesca, fala de caça. Embora algumas juízas e promotores não entendam assim, caçar javali é legal. Na Argentina, mais que legal é um hábito que vem desde 1906 quando foram introduzidos, na região da pampa, por Don Pedro Luro. Hoje, mais de cem anos depois, está disseminado por todo sul da América do Sul, incluindo os campos de cima da serra, aqui no Rio Grande do Sul. Oriundo de criatórios, de onde fugiram ou foram soltos, este imigrante europeu tem um peso e medida que varia conforme sua dieta alimentar. Muito bem adaptado, por ser um animal de mato por excelência, busca resguardo durante o dia na mata e a noite começa sua ronda por alimento. Na Argentina, mais precisamente na Estancia La Eugenia, uma fazenda especializada em caça-maior, o monstro pode passar os 200 kg. Sua pelagem varia de cinza escuro, parda e até preta e sua caça é um desafio. Apesar de sua visão algo débil, o javali possui faro e audição extraordinário, tornando-o uma presa difícil, arisca e um troféu cobiçado. Além do instinto aguçado, da agressividade, os machos têm uma peculiaridade notável: a sua dentadura possui quatro caninos curvados. Os dois inferiores se chamam defesas e os superiores amoladores. São armas temíveis. Seus hábitos alimentares são diversos. Por ser onívoro, se alimenta de raízes, plantas, frutas, ervas, pequenos animais e até carcaças de animais mortos. Na região de La Pampa, alimenta-se da vagem de uma árvore muito comum, a Chaucha.
Caçando o bicho
Adrenalina na veia. Existem várias maneiras de se caçar javalis. A mais usual é a caçada de espera. Nesta modalidade, identifica-se o barreiro (local aonde o javali vai a noite se alimentar e se banhar de lama). Monta-se então uma espera que pode ser em cima de uma árvore ou até a construção de um pequeno girau. O caçador deve chegar no "apostadeiro" no final da tarde. Uma condição primordial para caça do javali: lua cheia e noite limpa. Sem luz da lua, nada feito. Outra regra básica: silêncio total. O mestre Juan Moro sentencia: "O caçador deve fazer menos barulho que um morto". Roupas de tecido sintético que raspem, como o naylon, são descartadas. Até uma bala batendo nos dentes prejudica. Tossir, nem pensar. A munição recomendada é no mínimo de 7 mm de diâmetro. A arma deve ter uma mira telescópica e o alvo que produz melhor resultado é a região da paleta do animal, onde se concentram os orgãos vitais (coração e pulmões), e produzirão uma morte imediata.
A espera
A noite cai sobre La Pampa. Os últimos raios de sol dão uma cor púrpura para o imenso horizonte. Vai começar o jogo. Na espera, o caçador fica a mercê de frio e ventos, portanto, são necessárias generosas camadas de roupa. A luz da lua começa desenhar sombras e o uso do binóculo é necessário para dirimir dúvidas entre sombras e objetos. Aos poucos a visão se acostuma a débil luz. Esta espera pode durar horas. O pensamento que já andava distante quando é resgatado por um ruído. Uma bufada, como se fosse uma tosse abafada. O coração dispara: é o bicho! A mão desenha no ar uma trajetória em direção ao binóculo. Qualquer ruído pode ser fatal. No barreiro estão lá eles. Uma vara com quatro fêmeas e um macho. Escuro, bufando e maior que as fêmeas. Eis o alvo. O rifle .308 Winchester é sacado. O coração pula como se fosse saltar pela boca. É necessário regularizar a pulsação, pois não existe mira possível nessa situação. A cruz da luneta passeia no vulto do macho. Por fim, descansa na paleta do javali. O dedo aperta o gatilho. Um estouro! O animal, como se tivesse levado um choque dispara para uma vegetação rasteira e desaparece. O silêncio retoma a pampa e o pensamenrto martela uma notícia ruim: errei o tiro! Após duas horas, uma camionete da fazenda vem buscar o caçador imerso em "malos pensamientos" . Com ajuda de lanternas, ainda se busca vestígios de sangue ou algo que indique o acerto do tiro. Nada. "Volvemos mañana con los perros" diz o guia. El dia seguinte Com a luz do sol e ajuda de cães, lá está um pequeno exército buscando vestígios da caça. Uma gota de sangue dá um indício. Pegadas vão em direção de espinheiros de difícil acesso. De repente, mais sangue. Metros adiante, uma bufada, um espirro de sangue. Cem metros, sobre o capim seco, mais um jorro. O guia e o cão perdem o rastro. O caçador insiste e seguindo gotigulas de sangue chega ao corpo inerte do animal. Mais de 150 metros do local onde recebeu o impacto. Com o coração transfixado, ele estava morto mas ele não sabia. O que era aborrecimento se transforma em alegria transbordante, e , em estando na Argentina, vinho tinto. Está encerrada a caçada do javali. Muita espera, adrenalina, sangue frio e sobretudo, legal.
Carlos Henrique Iotti
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