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Festival da Truta da Serra Catarinense

O Festival da Truta da Serra Catarinense acontece entre os dias 10 a 12 de outubro em São Joaquim, SC. Na Abertura do Evento será apresentado o Projeto de Pesca Esportiva nos rios da Serra Catarinense e o Projeto da ...




Um encontro com o desconhecido

Por David Jones! Essa foi uma aventura que tangeu os limites com o desconhecido. Não aquele que chamamos de fulano... Estou chegando agora de São José dos Ausentes, "terra de bravos", onde eu e o Iotti protagonizamos mais uma intrépida pescaria-incêndio, em um acampamento muito legal, numa noite gelada de lua cheia, do inverno gaúcho.

Manhã de terça-feira, um dia lindo com um "céu de brigadiano", todo "azuli"! E a "Nuvem Branca" singrando os campos de cima da serra, ainda congelados, pela noite de fim do outono no Rio Grande do Sul. Por curiosidade, chegamos a Ausentes por uma estrada diferente, que serpenteia o vale das trutas pelo lado oeste, porém uma estrada sombria, devido a terrível e extensa plantação de Pinus, úmida e fria, mesmo ao meio-dia permanecia coberta pela geada, o que fazia a pick-up derrapar constantemente, dando uns cagaços, nas curvas estreitas. Estranha sensação.

Logo mais adiante encontramos um cemitério, pequeno. Não tinha mais que meia dúzia de defuntos ali. Antigo. Entaipado. Em meio a um campo. Destacava-se um busto sobre uma tumba, como de um general de antigamente, com barbas compridas. Quem estaria enterrado ali? Um bravo herói da revolução farroupilha, um dos nobres portugueses que aqui teria aportado para tentar tomar posse de uma sesmaria, um dos famosos ausentes? Mas eles nunca estiveram. Conjecturas.

Logo entramos na sede da municipalidade e provimos o estoque do que era necessário: pastéis, sal grosso, água para os radiadores, ar para os pneus e o kit básico para consertar o estrago enogastronômico que objetivávamos consumar.

Mais 30 km e estávamos no pentágono, a Toca do Graxaim, uma propriedade particular, já nos arrumando para encarar o rio.

A pesca e a gorda

O destino de pesca era a parte superior do rio Silveira e rumamos para lá, a pé, por entre os morros, tentando fazer o caminho mais curto em meio a tantas voltas caprichosas da geografia, muito característica da região.

Ausentes, para mim, geograficamente falando, é como uma mulher muito gorda deitada sobre um mochinho, muito pequeno, com mamas enormes, uma barriga enorme, tudo enorme, aqueles braços parecendo pães coloniais com grossas camadas de melado, como uma criança esperando talco nas dobrinhas, milhares de dobrinhas e onde outros milhares de ondulações se expressam dramaticamente, como o urro da graxa pura!

E por entre os pneus da gordinha caminhávamos e nos perdíamos em suas cañadas para chegar ao vale vértil, onde se encrava uma floresta negra de araucárias, por onde corre um dos rios que derramam a alegria dos homens que pescam, o Silveira.

Paramos para pescar em um lugar desses, lindos e indescritíveis, mágico, que só outro pescador, em mesmo estado de espírito, pode compreender. Um braço do Silveira sob uma mata de galeria, um Sendero. Havia um pool e por mil caranguejos que deveria haver trutas naquele lugar encantado, onde habitava uma garça, em uma araucária, na miopia fantasiosa do Iotti. Até se mexia de vez em quando, sobre o dosel. Era a marca de onde havia chego à enchente, uma sacola branca.

Eu estava bufando de cansado, dos sobe e desce das banhas da tirana gorda geográfica. Porém, para atingir as partes mais longínquas do rio, é necessário. Mas, comecei a pescar. De início com uma BHprince, mosca que sempre me ajuda e pouco me atrapalha, com uma vara TFO #2 e usando o runimento de uma linha #4 com amnesia numa carretilha STH Cayuga #1 dourada, lindaça. Casting interessante. Não fumegou e cambiei a mosca, comecei por ninfas tradicionais, fui trocando, cheguei a usar algumas até exóticas. Passei para a Bento XI, que é muito popular pelas corredeiras ausentinas, graças ao Deporte, Zorrer e Thor que celebrizaram esta mosca que resume um conceito de atado. O Iotti pescava com uma #1 SAGE e uma ninfa pernuda pra caramba. E fiquei pescando, contemplando a vastidão dos horizontes dali... Os morros. Viajando.

E me distraí ali por longo tempo, até que notei que não pegamos nada. E desistimos. E caminhamos mais adiante, subindo o rio, margeando uma taipa antiga. Junto à taipa há uma cerca. A cerca deve ter a idade do chão, carcomida pelo tempo, feita muito depois, para reparar a taipa. Passei a imaginar a idade daquela taipa, de pedras de basalto tão velho e ruim, que chegou a endurecer de novo, pois o basalto por lá é por demais quebradiço. A história que está escrita ali, por tropas e tropeiros, lenhadores, mateiros, a formação de um povo.

Bom, resolvemos dar no meio da artéria, com as patas na medalhinha, ou vai ou racha a tampa da caixa! Fomos para a corredeira infalível do Raug, onde sempre se pegam as trutas velhas. Com categoria e cheio de estilo, pescamos e trocamos de moscas diversas vezes. Reparei que havia moscas secas na água e mudei para moscas secas.

O Iotti sentou na margem, do outro lado da taipa e conversamos sobre pescar mais abaixo. Teríamos que cruzar o rio. Ou acima? Decidimos por nem um e nem outro, mas por fazer fogo, tomar vinho e tocar violão. O sol estava a dois palmos de uma das curvas da gorda.

Pedi, quase implorando, que procurássemos um caminho reto e com o mínimo de subidas, pela pança da gorda, possível, pois o painel estava cheio de luzes vermelhas piscando. O Iotti é maratonista criado a todinho, e eu só caminho se for pra buscar alguma comida na geladeira. Contrastes.

E seguimos pelo seio de duas tetas gigantes, onde vacas alpinistas pastavam, e corriam verticalmente em ascensão aos céus de "brigadiano". Aliás, caminho que fizemos certa feita, em um fevereiro quente, para "tentar achar o leito seco, de um arroio, no meio de um mato, que nos levaria para um passo, no outro rio, que teríamos que cruzar para, então e enfim, chegarmos ao acampamento" e acertamos o caminho, o que é muito raro, mesmo.

A gordona geográfica que me perdoe, mas meu lema sempre foi: peixes gordos e mulheres magras! (e agora, geografias também).

O Incêndio

Resolvemos por inaugurar a parrilla, com uma costela de ovelha e umas lingüiças. Primeiros as lingüiças, pois a fome era grande. Paralelamente começamos uma fogueira a uns dois metros de distância, para aquecer o chão onde dormiríamos. A temperatura começou a despencar drasticamente quando o sol se pôs e nos preocupamos com a pick-up, que estava com um histórico de reinadas para pegar de manhã cedo, quando muito frio. Até querosene tinha dentro do tanque. Acertamos uma regra e uma metodologia de campanha para mantermos ela em funcionamento de tantos em tantos.

Um luar enorme surgiu, lua cheia, quando estávamos em pleno trabalho enogastronômico. A atmosfera limpa permitia ver os detalhes da lua, os mares da lua, mares que não tem peixes, por sinal.

Duas garrafas de Malbec depois, ao redor das duas fogueiras, falávamos como dragões, pois a fumaceira que saia da boca era um termômetro sinistro, que apenas indicaria a posição azul do marcador invisível onde se poderia ler "frio absurdo". Discutíamos autores da América Latina, política, astronomia, todas as formas de analfabetismo, cotação do barril do petróleo, pérolas, adágios, piadas, canções, cantores, biografias, criando e recriando, sempre, o pano de fundo da imaginação, da caixa mágica e do triste efeito pandora, enquanto lembrávamos os amigos e acreditávamos na possibilidade de quebrar uma taça de cristal com um berro certeiro, que sempre errávamos.

Mais um capítulo de bobagens muito loucas não fora escrita, mas devidamente memorizada para esquecermos logo em seguida. E assim entramos na terceira e última garrafa, um cabernet sauvignon. Foi quando a coisa ficou feia. O frio tornou-se um inimigo invisível, que nos acertava com suas flechas microscópicas. Tocando violão, cantando e assado carne, fomos drenando a terceira garrafa e alimentando o fogo da fogueira que já atingia um metro de labaredas nas suas múltiplas cores do azul ao vermelho.

Fez-se necessária uma chamada extra. E por unanimidade resolvemos pegar a Nuvem Branca, que esquentávamos de hora em hora, e irmos para a Fazenda Potreirinhos, buscar mais umas garrafas.

Certamente se alguém que não fosse pandorga estivesse conosco nos demoveria dessa empreitada, ou não. Mais certo que não. Demoveríamo-lo. O frio transcende a razão. E movidos pelo frio, ou pelo vinho, julgamos normal percorrer uns 15 km, cruzar um rio duas vezes, em plena madrugada gelada, para buscar umas garrafas de vinho.

Saímos convictos que encontraríamos algum vinho chileno ou argentino para nos acalentar... Então, as duas crianças ligaram a camionete e atravessaram o rio no meio da noite, cruzaram os campos, canhadas e tetões da gorda para ir buscar mais vinho no Chico. Cruzamos o rio com muita atenção dentro da cabine, para não precisarmos nos molhar tirando pedras do caminho, ou até, encalhando num poço maior.

Numa encruzilhada, vimos um ser estranho demais, coberto por uma capa vermelha, com barbas compridas e grisalhas, me pareceu o a fisionomia estampada no LP Aqualung do Jetro Tull. Assustador. No gelo. Longe de tudo. Nos Ausentes. Na madrugada. Com um olhar sinistro... Como diz o Mixaria, numa noite linda pra namorar, ou caçar tatu, não elegemos de pronto a nossa visão como pauta, creio que cada um ficou remoendo e racionalizando aquilo até que compreendêssemos que não era desse mundo. Talvez o bravo do busto do cemitério? Vai saber…

Tracionados e brigando contra o gelo nas pedras da estrada chegamos passado da meia-noite para tirar o Chico da cama.

Após pegarmos os vinhos, nós quatro (cada um via 2), voltamos pela estrada escura. Foi quando, entre os matos, passou por nossa frente um animal todo negro com um rabo muito grande. Eu inventei na hora que era um tamanduá, o Iotti discordou e disse que era um furão gigante, parecia um lobo, mas era menor que um urso... O estado dos gambás e movidos por curiosidade humana pura, nos fez campear o bicho com os faróis até que ele estacou no campo. Resolvemos apear e ir correndo ver o que era. Eu, para me apressar, resolvi ir rolando. O que deu muito certo, pois cheguei antes. Mas o ser se transformou numa pedra e mesmo como pedra podia ainda distinguir seus olhos e divisar seu rabo. Tentei enquadrar na taxonomia animal, mas não deu muito certo. Mas agora sóbrio tenho certeza que era um lobisôme, que virou pedra... Fico devendo as fotos das alucinações...

Voltamos ao acampamento, animados com as nossas novas garrafas. E tivemos que reavivar o fogo, pois o frio estava ganhando a caloria dele. E o fizemos a preceito. Terminamos com a costela de ovelha, a melhor que já fora feita sem ajuda do Raug!

Montamos as barracas e resolvemos ir dormir lá pelas tantas, vencidos pelo frio. Deixando o incêndio espetacular aquecendo o acampamento.

De manhã, melhor à uma hora da tarde, enquanto tentávamos conseguir ajuda, pois a água da bateria tinha congelado, notamos que o rio estava congelado e correndo abaixo do gelo, no Desnível dos Rios. Jogamos pedras e elas não quebraram o gelo, saíram quicando... Foi lindo demais para fechar um acampamento perfeito.


Gustavo de Marchi

Carlos Henrique Iotti


Loja de Pesca