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Festival da Truta da Serra Catarinense

O Festival da Truta da Serra Catarinense acontece entre os dias 10 a 12 de outubro em São Joaquim, SC. Na Abertura do Evento será apresentado o Projeto de Pesca Esportiva nos rios da Serra Catarinense e o Projeto da ...




Acampamento no Carnaval

Me correspondi com o Iotti dizendo que estava com saudade dos amigos e precisávamos pescar antes que fôssemos viajar, em datas diferentes, desencontradamente, para a mesma região da Argentina. Ele me liga em seguida, de manhã cedo e diz assim: primeiro ouve o plano, tu vais buscar a chave nova das porteiras... e por aí a fora, pra irmos pescar no dia seguinte.

Anoiteceu, eu estava com o jeep carregado e com a chave no bolso, propus pro Iotti de jantarmos juntos e depois sairmos naquela noite mesmo, para ganharmos tempo. Perto da meia-noite nos encontramos no restaurante Edelweiss em Gramado, e após uma fantástica Truta ao Molho de Amêndoas e um Linguado Bretone sem comentários, o Iotti muniu-se de um conhaque Napoleon e carregamos o "El Toro" para a viagem. E pé na tábua.

Passamos Canela. Passando pelo Saiqui eu dei a idéia de encurtarmos caminho e irmos por Bom Jesus, via Lajeado Grande, pelo Passo do Inferno. O nome fez juz à estrada... Deplorável, uma batedeira, um leito de rio, pedras irregulares de todos os tamanhos sobre uma matriz de buracos. Após seis horas de sacudição infernal chegamos à Toca do Graxaim Carçado, contando ainda com uma das piores neblinas que já vi. O frio era de 2 graus centígrados, a pressão atmosférica estável em 983 mb, a neblina densa, a umidade encharcante. E nessas condições acendemos a fogueira de nó de pinho e começamos a armar o acampamento.

Depois, aquela fuzarca boa: preparar o café da manhã! E montar a grelha, armar as barracas, colocar as mochilas e sacos de dormir nas barracas e ainda achar pilhas, lanternas, gás, micro lampião, por aí... Procurar as facas do Callegari (na mesa, já havia uma coleção delas) tudo à mão e enfim montar uma vara de fly. Atar na ponta do tipet da varinha de fly uma Caddis feita em anzol 26 com meia dúzia de pelos brancos de barriga de cervo e um fiozinho floss vermelho...

Enquanto a carne de vazio do café da manhã começava a chiar no fogo a gente olhava com vontade e sono para os lambaris que estavam no rio, para o rio que estava há 3 metros de nós.

Fomos incomodar os lambaras. Um atrás do outro. Muitos. Bonitos. Prateados e vermelhos e pretos. Atacavam nos fins de corredeirinhas sobre as lages rasas, na transparência daquelas águas mágicas que abrigam trutas, lambaris, lontras e Graxains.

Lentamente caminhando no campo, voltando para olhar a carne eu olhava o lugar mais mágico de toda região e talvez de todo estado e talvez do mundo inteiro, para mim: aquele acampamento simples em frente à Catedral de Pedra, o pequeno cânion, a mata sobre o platô, o rio, a cascata e no primeiro plano aquelas barracas, a fogueira, como um pentágono em meio à tudo, as cadeiras, a mesa de buteco, e a camionete formando uma única e chórnica complexidade sintética estética, onírica e lúdica, um chocalho para meus olhos de criança, um acampamento! E na minha mente vieram as imagens de outros acampamentos que empreendia com meu mano em lugares tão ermos como este, mas não tão belos, distintos sim, em nossa infância. E me dei conta que estava louco de saudades e vontades de acampar por mais que tenha passado 20 dias na estrada à pouco tempo e esteja me preparando para mais 20 dias de estrada, me liguei que sempre estou pronto e disposto à acampar, sempre afins de estar outdoor, que minha vida se resume à esta necessidade atávica de estar perto do fogo, dos peixes, das aves das plantas, das lontras, dos Graxains. OUTDOOR. Caminhava assim pensando, concluindo coisas importantes para mim.

Comemos o vazio delicioso como café da manhã, temperado à sal e pimenta. O Iotti manifestou que iria ir dormir e que acordaria pelas 10 h para gente se aprontar para pescar. Também fui para minha barraca.

Como montei tudo no escuro não me liguei num pequeno cocuruto que iria me torturar a coluna durante uma meia hora enquanto eu dormia, coisa muito terapêutica. Cansado, chacoalhado da estrada, se não fosse o conhaque, certamente estaria congelando também, mas sentindo esta paz dos grandes momentos. Ouvindo as gralhas, os bico chan-chans, as águas da corredeira, as da cascata ao longe, prestando atenção no mundo sonoro que urrava como a bufa constante de uma turbina musical. Fui para o saco-de-dormir e fechei hermeticamente a barraca, ainda sob neblina e sob o frio, vestindo um casaco, um polar e quase toda a roupa que havia levado.

Abri os olhos estranhando a luminosidade e o calor insuportável! Era o sol das 11 h que estava rachando a cuca... Levantei e desencilhei do saco de dormir e daquele monte de roupas quentes. E me atirei no rio gelado para um banho despertador, desesperado de calor. Logo depois o Iotti acorda e montamos as tralhas para ir pescar em um outro rio, alguns quilômetros dali.

Iniciamos a marcha e caminhamos muito, conversando muito, rindo muito, cruzando cerros, montanhas e canhadas, atravessando banhados, por campos, matas e capoeiras, pulando cercas e taipas, em encostas íngremes e decidas de dar cãimbra nas panturilhas, chegamos, após 3 horas, aonde o Iotti havia definido como o lugar perfeito, tendo, praticamente, reformado a língua portuguesa pelo percurso. E o era. Perfeito. Se eu fosse uma truta, me mudava pra lá.

De fato, o Iotti se posicionou numa corredeira com uma pequena ninfa, numa vara Sage número zero e casteou uma ou duas vezes ali quando começou o gritedo... eu estava perto, achei que matavam um porco com um garfo. Num dia quente pra caramba, em pleno carnaval brasileiro, sob um “céu de brigadiano”como se diz na Jaquirana, o camarada pega uma truta, num lugar onde ninguém atribui a existência delas. Corri, fotos da briga, alcancei a net e na hora de pegar na mão a emoção foi tamanha que o peixe se mandou à lá cria!

Pescamos ainda muitos lambarís em vários pontos próximos, encontramos a casa fantástica de uma lontra, que pelas vezes, um dia comia pâncoras, em outro insetos e noutro trutas, mais ou menos como eu...

Bãh! O retorno pro acampamento-base foi homérico. Literalmente, pois pareceu uma Odiséia. Eu convenci (sem muita convicção) o Iotti que era só subir um morrinho ali e do outro lado, pelos meus instintos, estaria o acampamento-base.

Começa que nós estávamos cançados. O Iotti havia feito uma pequena cirurgia na véspera e tinha alguns pontos para considerar, eu já estava caminhando de lado. O morrinho alí, na real, era o Everest... o ali era o lá... Mas subimos! Não bamo se mixá, né tchê!? Chegamos lá em cima, tinha mais uma K-2 para subir... subimos, claro que ninguém assubiava. E daí sim olhamos e o acampamento! Mas, estava longe, à Oeste, a alguns quilômetros. Me perdi do Iotti, deci por um paredão, uma escalada fantástica para um dia lindo como este, mas estava com minha fatiota de astronauta: com vara, colete, wader e wadershoes... foi legal pacas! Cada-lhe um escorregão de levantá hematoma azuli!

Cheguei no acampamento já tinha fogo, carne sobre a mesa e uma espumante nos esperando. Taças de cristal e sabrage! e abriu-se a primeira rolha da expedição. Assim demos início aos trabalhos da mesa. Quando digo mesa é mesa mesmo. Uma mesa da Móveis Massotti, tipo exportação, coisa requintada. Fizemos tochas, para nosso círculo-de-fogo, assim poderíamos gritar e cantar protegidos de uma determinada entidade... violão na mão, por que conosco a coisa tem música ao vivo! Fogaréu fantástico, fumegou a bagaça! Carne para uns 3 churrascos e uma bela carta de vinhos e espumantes.

Piadas de anão, sogra, papagaio e ditos jaquiranenses! E costela... e coração da paleta... até o momento dos vinhos abrimos várias espumantes. Vinho... um Don Pascual Tannat Marlot 2003, báh!

A estas condições, fatos, situações, únicos, pessoais e insubstituíveis chamamos Pesca com Mosca.

Mas báh! E lavar com a sagrada água ausentina! Diz inté, nas Jaquirana, que é benta! Se faz mal não sei, mas que eu di uns gol eu di!


Gustavo de Marchi


Loja de Pesca